14/04/2026

Reflexões e Estratégia: O Modelo do Sindicalismo na Mercedes aplicado ao Setor de Tecnologia da Informação – TI

Fonte: Fenadados

(Por Márcia Honda, Secretária de Tecnologia da Fenadados)

Reprodução

Em outubro de 2025, tive o privilégio de participar de uma visita técnica na planta da Mercedes-Benz em São Bernardo do Campo, motivada por atividade da I Conferência Nacional de IA com Direitos Sociais.

Observei que aquela planta funciona como um ecossistema onde a tecnologia de ponta convive com uma organização política sólida e muito experiente. Muito mais que aspectos tecnológicos, impressionou-me a seriedade do trabalho de base realizado pelos metalúrgicos. Ver como um diretor de base tem força para mobilizar a planta e interromper a produção a qualquer momento (mas principalmente quando a empresa age com intransigência) é uma lição de poder coletivo.

A empresa reconhece essa força. Tanto que designa um gerente exclusivo para relações sindicais, buscando diminuir os riscos de conflito. Notei que esse gestor é escolhido justamente pela capacidade de dialogar bem com as lideranças do chão de fábrica.

Os trabalhadores, por sua vez, entendem a importância dessas figuras, mas têm clareza de que o poder real nasce da categoria e é alimentado por ela própria.Essa experiência me fez pensar que precisamos olhar menos para as máquinas e mais para as pessoas.

O sindicato deve voltar a falar para o trabalhador e, principalmente, reaprender a ouvir. Em qualquer setor, deveríamos lutar para reconquistar esse espaço de influência. Na área de TI, isso significa ter força para resistir, por exemplo, quando uma nova tecnologia surge ou um novo direcionamento tecnológico nos é imposto, especialmente se suas consequências relacionam-se a eliminar postos de trabalho ou a precarizar direitos. Sabemos que a tecnologia é nossa ferramenta de trabalho e também nosso instrumento de luta.

Por isso, a Inteligência Artificial não deve nos assustar, mas sim nos impulsionar a desenvolver um pensamento crítico aguçado. Faço uma autocrítica para nós que atuamos no setor de tecnologia, pois é urgente ajustarmos o foco e ao mesmo tempo ampliarmos o olhar pois a “linha de produção” da TI vai muito além dos CPDs, dos sistemas operacionais ou das linhas de código.

Ela envolve uma rede viva de pessoas: quem especifica e homologa os entregáveis; quem vende a solução; quem prospecta novos caminhos; quem está na ponta atendendo o usuário final ou o cidadão; quem está na academia pesquisando; quem está usando nossos produtos e entre outros trabalhadores que estão bem além daqueles que estão trabalhando diretamente com os códigos e as infraestruturas tecnológicas.

Deste modo, o movimento sindical precisa, urgentemente, parar de olhar apenas para o “pessoal da TI” de forma isolada. É hora de pensarmos como Classe Trabalhadora. Hoje, a tecnologia não é mais um setor à parte; ela é a atividade finalística de quase todas as áreas da sociedade.

Ao compreendermos que somos parte de um todo maior, ganhamos a força necessária para agir como especialistas técnicos e também como uma categoria que sustenta o funcionamento do país.